O CONHECIMENTO DOS MUNDOS SUPERIORES

Sub-título: A iniciação

IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Entre os anos de 1904 e 1905, quando começou a escrever os artigos que mais tarde foram organizados neste livro (publicado em 1909), Rudolf Steiner atuava na Sociedade Teosófica Alemã, da qual permaneceu membro até 1912.

O conhecimento dos mundos superiores marca claramente um momento de transição em sua trajetória, no qual se afasta da Teosofia e inaugura os fundamentos da Antroposofia. Aquilo que, na Teosofia, era apresentado sobretudo como um conhecimento transmitido por mestres espirituais, transforma-se, na Antroposofia, em um caminho de conhecimento interior baseado em métodos e exercícios práticos.

Essa opção por um caminho de exercícios interiores não é inteiramente original de Steiner. Já existiam propostas semelhantes, como no cristianismo místico de Mestre Eckhart (c. 1260–1328), no protestantismo de Jakob Böhme (1575–1624), na tradição rosacruciana e mesmo em Franz Mesmer (1734–1815), figura posteriormente muito associada ao Espiritismo. Toda essa turma já propunha caminhos interiores por meio de exercícios progressivos de transformação da consciência.

Se caminhos interiores já existiam, qual foi então a originalidade de Steiner?
Foram muitas inovações. Citarei duas delas. Ele foi o primeiro no ocidente a dizer que você não precisa de um mestre, um guru ou sacerdote. Ele faz isso mas não abandona o leitor à própria sorte. Rejeitando tanto a mediunidade quanto estados inconscientes de consciência, Steiner apresenta um método acessível ao público em geral, baseado em exercícios progressivos, que integram ciência, filosofia e espiritualidade.

Outro grande diferencial de Steiner, considerando sua época, foi aprofundar o método científico de Goethe e colocar no centro do seu trabalho o pensar como órgão espiritual diretamente observável. Com isso, rompeu com a herança kantiana dominante, segundo a qual o pensamento não poderia jamais tornar-se objeto de observação de si mesmo. À época, supunha-se que o pensamento fosse capaz apenas de conhecer objetos externos, mas nunca a própria atividade do pensar enquanto em atividade.

O conhecimento dos mundos superiores junto com A ciência oculta, Teosofia e a A filosofia da liberdade formam o núcleo conceitual a partir do qual se edifica a Antroposofia.

CONTEÚDO DE O CONHECIMENTO DOS MUNDOS SUPERIORES
Dentre a vasta quantidade de palestras e publicações de Rudolf Steiner, O conhecimento dos mundos superiores é geralmente considerado a principal fonte de exercícios no caminho antroposófico.

Nele, encontram-se:

  • exercícios para a percepção dos mundos superiores;
  • exercícios graduais de autotransformação interior;
  • indicações sobre a disposição anímica necessária para esse caminho.

Os exercícios apresentados são simples: não envolvem rituais, invocações, práticas mediúnicas ou qualquer tipo de “muleta” exterior. São simples em sua forma, mas não fáceis em sua execução. Exigem constância, disciplina e força de vontade.

Estão organizados como que um roteiro de início, meio e fim. Ele cita a mudança dos sonhos, o sentimento que o “eu sensorial” é apenas um veículo do “eu superior”, de começar a perceber a aura das coisas, as percepções dos ambientes e do plano astral, por fim as vivências espirituais mais elevadas.

Steiner reconhece que existem outros caminhos mais rápidos de desenvolvimento espiritual, mas opta por um caminho seguro evitando os desvios e perigos frequentemente encontrados nesses processos. Essa preocupação com a segurança constitui um diferencial importante quando comparamos sua proposta com a de outras escolas espiritualistas. Preciso ser justo com a história e lembrar que os exercícios do Espiritismo como criado por Edgard Armond nos anos 50, já comentados aqui no Medite Comigo, tinham essa mesma preocupação da segurança, mas o leitor verá que se trata de uma abordagem totalmente diferente.

Ao ler O conhecimento dos mundos superiores ficará claro para o leitor a diferença entre o desenvolvimento parapsíquico (mediunidade) e o desenvolvimento cognitivo suprassensorial. No primeiro caso, a pessoa enxerga, escuta os planos sutis mas continua pensando da mesma maneira. No segundo caso, acontece uma mudança nos hábitos mentais, desenvolvendo junto o pensar, o sentir e o querer. No primeiro método há riscos, no segundo, segurança.

A palavra “Iniciação”, subtítulo do livro, em outras escolas significa ser introduzido à uma egrégora ou a um círculo espiritual ligado a seres imateriais. Em Steiner, o conceito de “iniciação” é bem diferente. Para ele, iniciado é alguém que, além de ter desenvolvido capacidades suprassensíveis, cultivou qualidades anímicas como autoconfiança, coragem, perseverança. Uma pessoa que aprendeu a suportar dor, decepção; que aprendeu enfrentar fracassos com calma e força. Ser um iniciado requer autodomínio deixando de lado anseios, opinião, caprichos e simpatias. É assim que se começa a construir uma consciência superior.

Apesar de ter sido escrito há mais de 120 anos, O conhecimento dos mundos superiores permanece um roteiro seguro para quem quer seguir o caminho espiritual de forma séria.

RECOMENDAÇÃO
À medida que eu lia a obra, fui tomando nota dos exercícios, que disponibilizei para download ao final desta página. O arquivo ainda não passou por uma revisão formal, mas o essencial do conteúdo está ali.

Para leitores que não tenham ainda assimilado conceitos como corpo astral, corpo etérico ou chacras (flores de lótus), o livro pode parecer nebuloso em alguns momentos. Por isso, sugiro a leitura prévia de Teosofia, do mesmo autor. Ainda assim, em minha opinião pessoal, algumas experiências e situações descritas por Steiner poderiam ter sido apresentadas de forma mais detalhada. Reconheço que estou sendo muito exigente. O detalhamento tornaria a obra gigantesca.

Um dos pontos altos do livro é a identificação de duas etapas marcantes do desenvolvimento espiritual, pelas quais todo aspirante necessariamente passa. Steiner chama essas etapas de “o encontro com os Guardiões do Limiar”. A tentativa de identificar tais momentos não é original e pode ser encontrada, por exemplo, no cristianismo místico como de Santa Teresa, São João da Cruz, entre outros. A diferença está no enfoque: Steiner é menos religioso nesse ponto e interpreta essas etapas como fruto do desenvolvimento da própria consciência, e não como resultado de uma intervenção divina. O leitor encontrará, portanto, mais uma vez, uma forte atenção para a cognição, promovendo um pensar livre das impressões sensoriais.

Particularmente creio que quando Steiner fala dos estados de sonho, ele fica aquém de outras escolas como a Conscienciologia. Se o seu objetivo é conhecer os estados da consciência quando estamos dormindo, talvez seja melhor buscar outra abordagem.

Um ponto tenho que deixar claro: A capacidade perceptiva do oculto não é a finalidade, isso é apenas o meio. O objetivo é a grandeza de alma.
Se é isso que você busca, este livro é mais que recomendado.

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PAULO HENRIQUE ARAUJO

paulo@meditecomigo.org

Moro em Recife. Desde cedo trabalhei e empreendi em vários segmentos dentro e fora do Brasil. Quando morava na China percebi que deveria dar mais atenção ao caminho espiritual. Além dos cursos e das práticas, os livros também ajudaram na minha jornada. Compartilho aqui alguns resumos na esperança que eles também lhes sejam úteis. Para ver todos os posts de Paulo clique aqui.

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