SOBRE O AUTOR
Nascido no território que hoje é a Espanha, Ibn Arabi(1165-1240), um dos mais influentes místicos do Islã, expõe neste livro as etapas e os estados de consciência que o buscador atravessa para alcançar a presença divina.
O COMEÇO DA JORNADA
Para que as portas da jornada se abram, o buscador precisa assumir alguns hábitos e posturas.
Dentre eles, o principal hábito é o recolhimento. Recolhimento é necessário pois em todas as etapas da jornada surgirão atrações (tentações) que nos desviam e impedem de seguirmos adiante. O recolhimento exige distanciamento de grupos. Não ir na onda dos outros. Não abrir o coração nem ouvidos para tolices. É preciso diferenciar mera opinião daquilo que é a verdade. Uma outra palavra para recolhimento é retiro. Por isso, o subtítulo “um manual para retiro”.
Outros hábitos são necessários:
Para você adotar esses hábitos há um requisito: o autoconhecimento. Quero deixar claro que para Ibn Arabi, o autoconhecimento não é consequência, é requisito.
Coloque na lista: disciplina, treinamento do caráter, resiliência e controle mental pois a imaginação lhe desviará do caminho. Bote aí: Alimentação sem gordura animal, não passar fome, nem se deixar ter a sensação de saciado.
Como se vê, a jornada exige empenho externo e interno. O resultado é o desenvolvimento do corpo astral (psicossoma). Você primeiro prepara o corpo astral para depois deixar a luz divina clarear a mente concreta.
Para isso, o grande mestre do sufismo nos dá duas técnicas:
Convenhamos, quase tudo isso já foi dito por várias outras escolas ocultistas e tradições religiosas. Exceto pela técnica 1 acima (não interromper os processos), há pouca novidade. Mas o que me interessava quando iniciei a leitura era a descrição das etapas.
ETAPAS EVOLUTIVAS
O que nos deparamos pelo caminho é muito diverso, coloco abaixo de forma simplificada.
O buscador perceberá o desenvolvimento de suas parapercepções, que como é colocado por Arabi são tanto de nível etérico (energético) quanto de nível astral (psicossoma, chacras). Arabi não usa esses conceitos, utilizo para facilitar. A recomendação do autor é de não se envolver com essas percepções supra-sensíveis (mediúnicas) pois vai lhe tirar do caminho. Dirá que quem entra nisso fica estacionado nisso. Retire-se de tudo isso e ocupe a mente com a lembrança de Deus.
Daí, seguindo a jornada, perceberá ação num nível mais elevado. A imaginação será presenteada com revelações superiores, mas, da mesma forma que na etapa anterior, não se preocupe com isso. Deixe para lá. O que importa é a revelação do mundo abstrato livre da matéria.
Surgem os testes, que são para o buscador a revelação dos graus dos diversos reinos: o mundo mineral com suas qualidades e possibilidades, o mundo vegetal e o animal. Mas o que se percebe desses reinos é apenas um reflexo do que há em nós. É um teste pois ainda é tudo do plano da imaginação. Desses mundos revelados, a única coisa que importa é se você conseguir observar qual a conexão deles com Deus. O resto não importa e é desvio. Volte para o retiro. Você deve se recolher em si pois se tiver a capacidade de perceber a essência desses seres estará apto a enxergar sua própria essência e os diversos processos de conversão entre um plano e outro.
E depois? O que acontece depois é original.
ORIGINALIDADE
Ao longo do texto, o autor faz diversas comparações entre o gnóstico, uma pessoa santa e um profeta. Da mesma forma que o autor, eu sentia uma vontade quase que irresistível de traçar paralelos com Goethe, com Samkhya, com o inconsciente coletivo de Jung, com a Antroposofia. Muita coisa parecida. Mas a distinção de outras linhas surge quando chegamos nos níveis mais elevados. Ibn Arabi descreve a linhagem dos profetas e o que cada um deles encarna. Para mim foi uma revelação. Consegui finalmente entender o racional do porque o Islã se vê como continuidade do legado de Moisés e de Cristo e a razão de afirmarem Maomé como o último profeta. São esses os estágios mais elevados apresentados por Ibn Arabi.
NÍVEL DE DIFICULDADE
O texto original de Arabi tem apenas 23 páginas. Ele escreveu o texto para seu enteado, que estava apenas começando sua jornada, mas preciso dizer que não é um livro para quem está no km 0 da jornada.
Arabi optava por uma escrita poética de forma que a descrição de cada etapa não é feita de forma objetiva. Os gurus indianos também faziam isso e tem um motivo: quando você tem acesso prévio ao que acontece em certas etapas do caminho sua mente vai criar uma experiência baseada no que você leu. Então, para que a jornada seja livre e verdadeira, as etapas precisam mesmo ser descritas dessa forma mais poética. É uma segurança para evitar a auto-sabotagem do ego.
ORGANIZAÇÃO
A edição que li é de 1981 e é a primeira tradução da obra para linguesa inglesa. Existe uma edição em português. Contudo, essa edição em inglês da Inner Traditions conta com comentários feitos por um especialista estudioso das obras de Arabi, chamado Abdul-Karim Jili (1365-1408). Seus comentários, que tomam outras 24 páginas, são essenciais e facilitam o entendimento principalmente para pessoas, que como eu, não fazem parte de uma tariqa.
Ao final do livro, temos um anexo muito útil com as explicações dos termos do universo islâmico. Hoje em dia esse índice tem valor apenas pela comodidade pois você pode consultar o ChatGPT e obter informações com a profundidade que desejar.
RECOMENDAÇÃO
Este livro serve como uma régua para você se reconhecer e assim saber em que etapa da jornada você se encontra. É de fato um guia para retornarmos em momentos de retiro.
Apesar de sua importância, este é um livro de interesse muito restrito e o custo benefício talvez não compense.
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paulo@meditecomigo.org
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