O MITO DA CAVERNA

Recentemente entrei em uma daquelas feirinhas de livros que encontramos em vários shoppings e me deparei com O Mito da Caverna. Pensei: “Nunca é tarde para ler uma das histórias mais influentes do pensamento ocidental.” Tinha preço simbólico, R$15. Peguei e comprei.

O texto faz parte dos livros VII, VIII e IX da obra maior de Platão, A República. Apesar de ser uma obra filosófica, ela pode — e deveria — ser lida por todos. A linguagem é acessível, mas carrega múltiplas camadas simbólicas, o que permite que cada leitor tenha sua própria percepção. Alguns se deterão nas sombras da caverna, outros na jornada de saída, outros ainda no retorno do prisioneiro ao interior da caverna.

Essa edição conta com comentários do professor Clóvis de Barros Filho, que destaca os aspectos filosóficos. No entanto, o prefácio induzirá o leitor ao ponto de vista do professor. Minha sugestão: pule essa parte do início e vá direto ao texto principal. Leia primeiro o texto de Platão e, depois, volte aos comentários do professor.

O livro tem duas partes.

PARTE 1 – A ALEGORIA DA CAVERNA
A famosa alegoria ocupa apenas as cinco primeiras páginas do Livro VII de A República. O ChatGPT, inclusive, preparou para nós uma versão ainda mais resumida, com apenas uma página, reunindo os elementos centrais a partir de traduções em domínio público. Clique aqui para baixar. Vale a leitura.

Para escrevê-la, como faz o ChatGPT, Platão não partiu do nada. Ele se inspirou em alguns princípios de Pitágoras e pelo Orfismo:

  • A alma é divina e imortal, mas está aprisionada no corpo;
  • A alma passa por vários corpos até se purificar (a chamada metempsicose, algo semelhante à reencarnação);
  • A purificação se dá através da vida moral e o conhecimento leva à libertação final (salvação);
  • Uma vez purificada, a alma deve voltar à sua origem celestial;

Platão então, condensou esses princípios nessa curta história da caverna. Foi um sucesso. O mito influenciou o pensamento religioso, místico e espiritualista do Ocidente. Muitas imagens presentes no inconsciente coletivo vêm daí: “a verdade liberta”, a luz como símbolo da verdade, a alma aprisionada no mundo material, a ascensão da consciência e mais, muito mais.

O Mito da Caverna ajudou a consolidar as ideias pitagóricas e do orfismo como modelo universal da iluminação espiritual. E por isso, todo buscador espiritual deveria conhecer essa parte da obra, ou pelo menos essa versão de uma página acima.

PARTE 2 – APLICAÇÕES SOCIAIS E POLÍTICAS
O restante do livro é a aplicação dessa alegoria espiritualista nos campos da filosofia e na sociedade.
Para quem busca apenas os aspectos espirituais, essa parte é dispensável.

Platão queria contrapor as ideias do sofismo (não confunda com sufismo, a porção mística do islamismo). No sofismo, as leis e a moral são criações do poder. Quem manda é quem define o que é justo. Para essa turma a verdade é relativa. Platão considerava o sofismo perigoso.

IMPRESSÕES PESSOAIS
Alguns pontos me chamaram atenção.

É muito interessante a relação que Platão estabelece entre temperamento, educação e as formas de governo. Segundo ele, existe uma sequência de degeneração política, baseada nas “almas” que governam:

  1. Aristocracia – governo dos virtuosos, os que tiveram acesso à uma boa educação (alma racional);
  2. Timocracia – governo dos honrados (alma irascível ou espiritual);
  3. Oligarquia – governo dos ricos (alma dominada pelo desejo de riqueza);
  4. Democracia – governo da maioria sem ordem (alma dominada por todos os desejos);
  5. Tirania – governo do desejo desenfreado (alma escrava da paixão).

Isso me levou a refletir que o Brasil não é uma democracia plena. Ainda temos fortes traços de uma oligarquia. Isto é, somos governados por pequenos grupos políticos, econômicos e jurídicos que defendem seus próprios interesses. Esse pequeno grupo define o que pode, e o que não pode. Como na oligarquia, esses pequenos grupos defendem o seus próprios interesses e não o do povo.

Segundo Platão, a democracia tende a degenerar em tirania, e começamos a perceber isso nos nossos dias.

Por fim, me surpreendeu quando Sócrates afirma que a democracia se instala pela ameaça ou violência da maioria pobre contra os oligarcas ricos.

ANACRONISMO
É fundamental lembrar que estamos lendo uma obra do século IV a.C. Por isso, certos trechos exigem cuidado, tem que dar um desconto pois contém valores de uma época não mais compatíveis com nosso tempo. Por exemplo:

  • Platão não era eugenista no sentido moderno do termo, mas há passagens delicadas, como a ideia de que o Estado deveria controlar quem pode ter filhos.
  • Platão dirá que as mulheres devem ter os mesmos deveres e direitos dos homens na cidade ideal. Ótimo! Isso era revolucionário para época. No entanto, em outros momentos, recai no padrão de sua época e solta alguns comentários machistas.

RECOMENDAÇÃO
O livro é escrito em forma de diálogo, mas às vezes parece um monólogo: Sócrates fala, e Glauco, um verdadeiro puxa-saco, concorda com tudo.
Em certos momentos a leitura é enfadonha. Leia ao menos o resumo de uma página do ChatGPT.

Para mim, os três últimos parágrafos do Livro IX são fundamentais — e quase ninguém fala sobre eles. Não farei como o comentarista Clóvis de Barros Filho que deu spoiler na introdução. Para saber, você terá que ler :)

links externos sugeridos pelo autor DESSE POST:

  • O mito da caverna em uma página

    Clique e baixe gratuitamente o PDF criado pelo ChatGPT.
    http://www.meditecomigo.org/wp-content/uploads/2025/07/Alegoria_da_Caverna_Platao.pdf

VIDEOS SUGERIDOS PELO AUTOR DESSE POST:

Clóvis de Barros Filho: Desvendando o Mito da Caverna – Parte 1 (17 minutos)

Clóvis de Barros Filho: Desvendando o Mito da Caverna – Parte 2 (18 minutos)

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PAULO HENRIQUE ARAUJO

paulo@meditecomigo.org

Moro em Recife. Desde cedo trabalhei e empreendi em vários segmentos dentro e fora do Brasil. Quando morava na China percebi que deveria dar mais atenção ao caminho espiritual. Além dos cursos e das práticas, os livros também ajudaram na minha jornada. Compartilho aqui alguns resumos na esperança que eles também lhes sejam úteis. Para ver todos os posts de Paulo clique aqui.

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