IMAGINAL WORLDS

Sub-título: Ibn al-'Arabi and the problem of religious diversity

QUEM É IBN ARABI
Ibn al-Arabi (1165-1240) é místico, isto é, fala a partir de sua própria experiência. Considerado santo por algumas linhas do sufismo, é um daqueles caras que deixou centenas de publicações. Para estudar sua obra é preciso uma vida. E foi isso que fez o autor americano William Chittick, que traz nessa publicação a visão de Ibn Arabi sobre a diversidade religiosa.

O MUNDO IMAGINAL
Mundo Imaginal, palavra que dá nome ao título (“Imaginal Worlds”), é o mundo intermediário, entre corpo e espírito, e que compartilha características desses dois mundos. Nem vivo, nem morto. Nem denso, nem sutil. Nem consciente, nem inconsciente. É a existência desse(s) Mundo(s) Imaginal(is) que nos permite ter experiências internas.

ORIGINALIDADE
Neste livro, o autor vai num nível de detalhe muito aprofundado e necessário para não perder a coerência da abordagem de Arabi que é extremamente incomum. Ele relaciona o surgimento de religiões com a forma que a realidade é montada. É genial, originalíssimo, único.

IDEIAS PRINCIPAIS
O que escrevo abaixo são só conclusões. Reforço que tudo em Arabi é fundamentado em como a realidade está montada.

REVELAÇÃO
Há 3 caminhos para se constituir uma religião: pela razão, pela experiência e pela revelação.
O método racional dos filósofos e dos teólogos só nos permitirá conceber um Deus infinito e incomparável. Já a experiência mística, permite vivência com seres e sensações indizíveis. A revelação, por sua vez, combina essas duas perspectivas (razão e mística) trazendo ao profeta as exatas e melhores palavras para transmitir a mensagem divina. Os profetas foram os que reconhecidamente chegaram mais próximos do Logos. 

Segundo o Corão (10:47), a revelação divina é um fenômeno universal, pois Deus enviou mensageiros a todos os povos. Isso desperta três perguntas logo de imediato:

“Se todas religiões vem do mesmo Deus porque há conflito e desintendimento entre elas?”
Apesar da origem ser de um mesmo Deus, as mensagens dos profetas são incompletas. Elas são adequadas à uma época, à uma cultura, à um povo. Podemos dizer que cada profeta manifesta um tipo específico de sabedoria divina. E é exatamente o que falta em cada uma das religiões que gera incongruência e disputas entre as pessoas.

“E as religiões mais antigas politeístas?”
Para Arabi, as religiões politeístas não estão erradas e sim incompletas. No caso específico do politeísmo, lhe falta a observação de uma qualidade de Deus, a incomparabilidade. Deus é incomparável, não sendo possível colocar lado a lado com outros seres. Dessa forma, ele defende a unicidade de Deus.

“E o que dizer das religiões baseadas em experiências pessoais, cultura e mitos?”
Bem, essas não são reconhecidas por Ibn Arabi pois não é através dessas formas que se chega a um padrão divino. Isso só se dá através da revelação. Essas formas estão situadas no Mundo Imaginal bem na ponta oposta do divino sofrendo diversas distorções próprias da natureza da realidade.

Uma imagem que retrata seu ponto de vista é a seguinte: Deus criou todas as religiões pois tudo partiu Dele. Há frutas doces e azedas, mas dependendo do solo, a fruteira não dá frutas.

DIVERSIDADE RELIGIOSA
Ibn Arabi apresenta alguns pontos interessantes nessa discussão:

  • Arabi dirá que a opção por uma linha religiosa demonstra até onde vai a disposição da pessoa. Preste atenção nisso. Cada crença pessoal demonstra o “escopo de prontidão” do indivíduo. Quer dizer que a crença está certa dentro do limite que o indivíduo consegue abraçar. E essa crença, mesmo que limitada, levará a um dado grau de felicidade e realização espiritual.
  • Al-Arabi não propõe uma união das religiões pois a unidade se manifesta na multiplicidade visível e invisível. A multiplicidade é uma manifestação de Deus. Isso é bem diferente do que dizem os indús ao afirmar que a multiplicidade é uma ilusão (maya).

E o que quer Arabi com isso? Seu objetivo não é a uniformidade doutrinal, nem mostrar a superioridade de uma ou outra religião, mas trazer a importância da prática do bem.

CONCLUSÃO
Em resumo, colocado numa única frase: a diversidade religiosa é intencional, não um erro histórico. O desacordo entre os religiosos ocorre no plano humano, não no plano da origem.

Se Deus quisesse, teria feito de vós uma só comunidade.
Corão (5:48)


ORGANIZAÇÃO

Após uma excelente introdução de William Chittick, temos três principais partes.
Na primeira parte, é mostrado o papel do ser humano no universo.
Na segunda, se ilustra o papel da imaginação no cosmos, na psique humana e na linguagem.
Na terceira parte, o foco vai para a diversidade religiosa.

RECOMENDAÇÃO
Faço algumas observações.
1 – Para ler esse livro, você tem que ser universalista de verdade, com U maiúsculo.
2 – A leitura exige bastante atenção do leitor. E também algum conhecimento e experiência multidimensional (metafísica) prévia.
3 – Em alguns momentos Ibn Arabi puxa a sardinha para o profeta Maomé, e portanto é preciso dar um desconto para isso. Ou ir à fundo e buscar resposta em outro livro seu que trata especificamente sobre isso.

Nada disso tira o brilho dessa obra.
Para mim, foi uma leitura muito importante pois nele encontrei explicações que faltam em outras religiões e escolas esotéricas.

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PAULO HENRIQUE ARAUJO

paulo@meditecomigo.org

Moro em Recife. Desde cedo trabalhei e empreendi em vários segmentos dentro e fora do Brasil. Quando morava na China percebi que deveria dar mais atenção ao caminho espiritual. Além dos cursos e das práticas, os livros também ajudaram na minha jornada. Compartilho aqui alguns resumos na esperança que eles também lhes sejam úteis. Para ver todos os posts de Paulo clique aqui.

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