FREUD, JUNG & SPIRITUAL PSYCHOLOGY

A Antroposofia é muito conhecida pelas suas aplicações como na pedagogia, medicina, agricultura, economia entre outras das quais quero aqui destacar a psicologia. Em suas inúmeras palestras, Steiner apresentou princípios que direcionariam futuramente procedimentos profissionais em psicologia. Mas nunca chegou ele mesmo a desenvolver uma Psicologia Antroposófica, ou uma Psicologia Espiritual (termo utilizado no título do livro). Ele lançou as bases. O livro aqui comentado são palestras que apresentam algumas dessas bases. São 5 palestras nos anos de 1912, 1917 e 1921 (GA178, GA143, GA205). Elas tem em comum comentários de Steiner sobre a Psicanálise de Freud e a Psicologia Analítica de Jung.

ORIGINALIDADE
Essas palestras não são encontradas exclusivamente nesse livro. Você poderá encontrá-las separadas em outras obras. Da mesma forma, o texto principal deste livro se encontra em publicações anteriores com o título de “Psychoanalysis in the Light of Anthroposophy” (1946) ou publicado como “Psychoanalysis and Spiritual Psychology” (1990). (veja link abaixo no final dessa página para versão online gratuita)

Além das palestras temos 24 páginas de uma esplêndida introdução por Robert Sardello, autor de diversos livros, especialista nos trabalhos de Jung e Steiner. A introdução é um verdadeiro destaque e você não as encontrará nessas edições citadas acima.

CONTEXTO HISTÓRICO
Vamos olhar para algumas datas antes de entrar no conteúdo do livro propriamente dito.

– Sigmund Freud (Áustria, 1856-1939)
– Rudolf Steiner (Áustria, 1861-1925)
– Carl Jung (Suíça, 1875-1961)

Freud o mais velho, “regulando” em idade com Steiner e Jung o mais novo. Os 3 foram contemporâneos. Os três se tornaram pessoas reconhecidas enquanto vivas. Em certa etapa da vida Steiner e Jung chegaram a morar próximos um do outro mas um encontro entre eles nunca aconteceu.

Todos passaram pela revolução francesa (1889) e pela primeira guerra (1914-1918). Os conhecimentos psiquiátricos, neurofisiológicos estavam sendo desenvolvidos. Distúrbios psíquicos não eram sequer considerados pela medicina.

Freud já tinha iniciado suas pesquisas mas atrai atenção para o universo além do círculo médico com a publicação de “A Interpretação dos Sonhos” em 1899, ano em que Steiner com seus 38 anos se juntava à Teosofia. Mais ou menos por aí, em 1902, Jung que participava de sessões mediúnicas, concluía sua tese de doutorado entitulada “Sobre a psicologia e psicopatologia dos assim chamados fenômenos ocultos“.

Freud e Jung se conhecem em 1907. Uma amizade que durou cerca de 5 ou 6 anos quando Jung passa a divergir da psicanálise e lança a Psicologia Analítica. Curiosamente, esse é o mesmo momento que em Steiner diverge da Teosofia de Blavatsky e cria a Antroposofia.

Jung era um sujeito dividido. De início, queria ser aceito pela academia. Era um cientista. Mas ao mesmo tempo, como se diz aqui no Brasil, Jung tinha um “pezinho no terreiro”. E em certo momento se aproximou das obras orientais, budismo, mandalas, alquimia. O ápice de suas reflexões está no “Livro Vermelho“. Porém quando este veio a público, Steiner já tinha falecido. Steiner não chegou a conhecer a Psicologia Analítica de Jung como a conhecemos hoje.

Essa retrospectiva nos mostra então que na época em que as palestras deste livro foram proferidas essas terapias ainda não tinham atingido sua maturidade conceitual. Somos tentados a concluir que o entendimento que Steiner teve de Jung e Freud foi limitado e portanto suas palestras não são confiáveis.

Mas se o leitor estiver atento verá que não é esse o caso. Notará que as críticas em suas palestras incidem exatamente sobre as bases em que se apoiaram Freud e Jung desde o início. Explico abaixo.

CONTEÚDO DAS PALESTRAS
Na primeira palestra Steiner tenta mostrar que tanto Freud quanto Jung criaram terapias com método científico materialista. Até aí não haveria incômodo uma vez que o próprio Freud, em seu trabalho “Project for a Scientific Psychology” de 1895, afirma sua intenção de buscar uma base fisiológica e materialista da psique humana. E Jung chegou a dizer que errou ao tentar observar a alma como um objeto. As discordâncias começarão a surgir quando Steiner afirma que as dificuldades dos seres humanos seriam melhor resolvidas se considerássemos aspectos espirituais. Freud e Jung fazem um recorte do ser humano, são reducionistas. São linhas terapêuticas que não olham para a vida! Esse é o principal ponto levantado por Steiner. Há outros menores que fui anotando e listo abaixo:

  • Steiner criticará o ambiente terapêutico dessas 2 linhas. Elas acontece em uma sala fechada. São artificiais.
  • Critica Jung pela ideia de arquétipo como seres vivos em nós.
  • Critica a visão Freudiana que considera tudo somente desde a infância quando na verdade já trazemos questões e aptidões desde vidas passadas.
  • Steiner alertava: Uma vez que se tem contato com esses conceitos Freudianos e Junguianos as pessoas começam a projetá-los nos outros. 100 anos depois posso ver que o alerta de Steiner se concretizou. Os terapeutas deixam de ter um olhar isento e passam a ver a vida dentro de um molde. Não é libertador. Eles restringem a cosmovisão do próprio terapeuta.
  • Steiner critica a tendência da sociedade de escutar cegamente esses especialistas e autoridades científicas.
  • Critica a ideia de um inconsciente inalcançável pelo consciente.
  • Toda a base da sexualidade que vemos nas teorias de Freud são fruto de sua própria vida sexual e não é assim que acontece com os outros.

Na segunda palestra, Rudolf Steiner coloca de lado a crítica à essas metodologias e move seu olhar para o profissional terapeuta. Ele não alivia. Dirá que as pessoas que viram profissionais dessas escolas Freudianas ou Junguianas tem mentalidade materialista, são superficiais e preconceituosos. Lhes faltam, assim como faltou a Jung e Freud, a observação genuína da vida. Lhes faltam conceitos mais sólidos e práticas que proporcionem experiências espirituais concretas. Steiner indicará seu livro “O conhecimento dos mundos superiores” onde apresenta o pensar, o sentir e o querer como chave para o entendimento do ser humano. Algumas informações são repetidas da primeira palestra. Há aqui uma preocupação em Steiner desses conceitos da psicologia influenciarem a pedagogia.

Steiner nos apresenta nessa palestra sua organização da mente em inconsciente, consciente e supraconsciente. É bem interessante mas exige conhecer a estrutura dos corpos apresentada 13 anos antes em seu livro “Teosofia”.

Terceira palestra. Em 2 páginas Steiner propõe um exercício original para olharmos para nossa alma e entender os fatos de nossa vida, entender o Carma e sairmos de uma posição de vitimização. O exercício é a rememoração de fatos de nossas vidas criando um personagem externo que depois se revelará por si próprio como algo interno em nós. Interessante não? Bem, ainda não tive a oportunidade de praticá-lo e dizer se funciona.

Steiner detalha etapas entre morte e vida. Nos fala da purificação neste período até a futura próxima encarnação. Daí explica a associação com traços físicos, morais e intelectuais que trazemos conosco. O terapeuta que acredita que a vida começa no útero deixa de lado princípios que repercutem no dia dia. Deveria entender a conexão e relação entre vidas.

Steiner vai longe e expõe a influência que o inconsciente tem em nosso corpo físico. Na última palestra ele “enfia o pé no acelerador”. Detalha a relação entre os órgãos da atual vida e o que seremos na próxima vida. Eu me considero uma pessoa aberta, mas nessas partes tive dificuldade. Para aceitar de forma não dogmática é preciso muita auto-observação e observação de terceiros. É preciso tempo de clínica. Acredito que um profissional dedicado conseguirá chegar nesse ponto. Deve ser algo muito empolgante e bonito entender a causa das “dificuldades da forma” como diz Steiner e ajudar outras pessoas nessa e na próxima vida.

DISCORDÂNCIA
Steiner dá um passo na frente sim, mas não era preciso desqualificar o trabalho dos outros. Não se pode negar que a Psicanálise de Freud e a Psicologia Analítica de Jung ajudaram e continuam ajudando muita gente até hoje. Talvez não sejam perfeitas mas sim representam um avanço sobre o entendimento da natureza da mente.

RECOMENDAÇÃO
Recomendaria que antes o leitor tenha lido “Três passos da Antroposofia“, “Teosofia” e “Os graus do conhecimento superior“.

O que tem nesse livro daqui é importante para o psicólogo da nova era da consciência. Será interessante aos que trabalham com biografia. Mas não posso recomendar para todos. O terapeuta holístico vai receber mais facilmente. O psicólogo materialista não. Para esse talvez seja melhor ter lido antes “Os limites do conhecimento científico“.

ENCERRAMENTO
Steiner é claro quanto a impossibilidade de se chegar a um entendimento do ser humano a partir de uma visão científica materialista: “É desonestidade acreditar simultaneamente na Bíblia e nessa física que vemos na academia“. A física com sua lei de conservação de energia, e de outro lado a Bíblia com a afirmação “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar”. (Mateus 24:35).

links externos sugeridos pelo autor DESSE POST:

VIDEOS SUGERIDOS PELO AUTOR DESSE POST:

Os palestrantes falam de Jung e Steiner. Tentam colocá-los lado a lado. Conseguem bem pouco. Mesmo assim, o vídeo é bem instrutivo. Em inglês (2 horas).

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PAULO HENRIQUE ARAUJO

paulo@meditecomigo.org

Moro em Recife. Desde cedo trabalhei e empreendi em vários segmentos dentro e fora do Brasil. Quando morava na China percebi que deveria dar mais atenção ao caminho espiritual. Além dos cursos e das práticas, os livros também ajudaram na minha jornada. Compartilho aqui alguns resumos na esperança que eles também lhes sejam úteis. Para ver todos os posts de Paulo clique aqui.

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