A IMORTALIDADE DA ALMA

Sub-título: E a razão superior e inferior

O AUTOR
Tomás de Aquino é considerado estabeleceu o padrão oficial de pensamento teológico e filosófico dos estudos eclesiásticos sobre metafísica, ética, doutrinas, virtudes etc. Em seus trabalhos ele unifica a tradição bíblica, com a filosofia de Aristóteles, a filosofia neoplatônica e pensadores árabes.

Tomás de Aquino não foi o primeiro a dialogar com judaísmo e islã no contexto cristão, mas representa um ponto de maturidade intelectual nesse encontro de tradições. 

Sua influência ultrapassa o meio acadêmico e ainda molda a maneira como muitas pessoas pensam, às vezes sem perceber. Considerado santo pelo igreja católica, Tomás de Aquino deu uma forte base racional para a teologia cristã.

Tomás escreveu mais de 80 obras. Entre as mais importantes estão a Suma Teológica, as Questões Disputadas e a Suma contra os Gentios. A Imortalidade da Alma trata de questões centrais para mim: o que é a alma humana e qual é sua natureza. Por esse motivo decidi ler.

CONTEÚDO
Neste pequeno livro, traduzido pela primeira vez diretamente do original para o português, o editor reúne as respostas de Tomás de Aquino a duas questões:
-Se a alma humana é imortal e incorruptível.
-Se há distinção entre um “intelecto superior” e um “intelecto inferior”.

COMO ERA ANTES DE TOMÁS DE AQUINO:
Tomás não parte do zero; ele entra numa discussão que já tinha séculos de história. Coloco abaixo uma linha evolutiva das ideias relacionadas com o tema da alma e da razão, que não estão no livro mas que darão um bom contexto para o leitor.

  • Platão (séc. IV a.C.): A alma é uma substância separada do corpo e participa das Ideias eternas.
  • Aristóteles (384–322 a.C.): A alma é a “forma do corpo”. Corpo e alma formam uma única substância viva, é o princípio vital que faz do corpo um ser vivo. Para ele, a alma inclui todas as faculdades: vegetativas, sensitivas e racionais. A única parte da alma que Aristóteles admite talvez ser “separável” é o intelecto.
  • Agostinho (354 – 430): Distingue uma razão “superior” (voltada a Deus e às realidades eternas) e outra “inferior” (voltada às coisas temporais). São como graus de interioridade e de atenção.
  • Avicena (980 – 1037): Propôs que alma racional é uma substância imaterial e incorruptível, independente do corpo.
  • Averróis (1126 – 1198): O intelecto é único. Cada pessoa tem imaginação, memória, percepção, fantasia. Essas são faculdades individuais. Mas o pensar propriamente dito, que lida com conceitos universais, pertence a um intelecto único e que está separado e compartilhado por toda a humanidade. Cada pessoa contribui com suas imagens mentais, mas a operação intelectual, abstração dos universais, ocorre nesse Intelecto Único.

O QUE TOMÁS PROPÕE:
Sobre a imortalidade da alma, Tomás de Aquino faz uma síntese incorporando de Aristóteles o conceito que a alma é “forma do corpo”, e de Avicena, que ela é espiritual e imortal.

Sobre a natureza da razão, Tomás rejeita a proposta de Averróis e afirmará que cada pessoa possui seu próprio intelecto.

Tomás de Aquino utiliza a divisão de intelecto superior e inferior de Agostinho mas abandona o lado espiritual e dará à essa divisão um enfoque de ato cognitivo. Ele mantém que o intelecto superior/inferior de Agostinho é como um movimento da alma. Mas refina o entendimento lançando duas funções:

  1. O intelecto agente (razão superior) tem a função de abstrair os universais das imagens sensíveis. É voltada aos objetos imateriais, como universais e verdades eternas.
  2. O intelecto possível (razão inferior) é a alma enquanto depende da imaginação e das imagens sensíveis, portanto mais ligada ao corpo. Ela recebe as formas inteligíveis abstratas do superior.

Essas não são duas substâncias, nem duas “porções” espirituais dentro da alma humana. A alma é indivisível.

DIFICULDADE
O texto segue uma estrutura escolástica da época: primeiro se expõe todas as possíveis objeções à tese; depois desmonta cada uma; por fim apresenta sua resposta positiva. Esse “método escolástico” pode soar estranho para quem está acostumado a textos diretos, e torna a leitura mais lenta.

Não é um livro empolgante e surgiu para mim vários momentos de dificuldade.

Vemos ao longo do livro, inúmeras vezes, a argumentação por reconhecimento e de continuidade.
Por exemplo: Se a alma conhece a verdade, que é perpétua, logo ela é perpétua. Ou como: O fim da alma humana é conhecer a causa primeira.

Sem algum contato prévio com Aristóteles e de estudos em filosofia fica difícil aceitar essas afirmações como verdadeiras.

RECOMENDAÇÃO
Tomás de Aquino é antes de tudo, um filósofo e teólogo; não fala a partir de experiência interior direta, mas a partir de argumentos racionais e de um esforço lógico impressionante para compreender o ser humano e sua relação com Deus. A tentativa de deduzir a imortalidade da alma puramente a partir da lógica e da razão não me parece totalmente bem-sucedida e por esse motivo não posso recomendar.

Ainda assim, sua influência é tão grande que é impossível ignorá-lo: concorde-se ou não com ele, Tomás moldou profundamente o pensamento ocidental.

VIDEOS SUGERIDOS PELO AUTOR DESSE POST:

Como São Tomás de Aquino Defende e Explica o Conceito de ALMA (5 minutos)

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PAULO HENRIQUE ARAUJO

paulo@meditecomigo.org

Moro em Recife. Desde cedo trabalhei e empreendi em vários segmentos dentro e fora do Brasil. Quando morava na China percebi que deveria dar mais atenção ao caminho espiritual. Além dos cursos e das práticas, os livros também ajudaram na minha jornada. Compartilho aqui alguns resumos na esperança que eles também lhes sejam úteis. Para ver todos os posts de Paulo clique aqui.

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