FILOSOFIAS AFRICANAS

Sub-título: Uma introdução

Na escola, aprende-se muita coisa sobre o pensamento europeu, pouquíssima coisa sobre a Ásia e absolutamente nada sobre a África. Este pequeno livro é um excelente primeiro passo para preencher essa lacuna educacional.

Já tinha visto livros como esse em inglês, mas Filosofias Africanas além de estar em português é leve e agradável.

Por tratar de vários povos e culturas africanas, os autores não poderam se aprofundar. De qualquer forma, eu diria que o livro cumpre a promessa de capa apresentando um panorama geral dos elementos que compõe uma filosofia africana tais como mitos, sistemas de valores, cosmogonias, concepções sobre vida, morte e ancestralidade.

O livro finaliza com 24 páginas de provérbios desses povos africanos.

CONTEÚDO
Para mim, de todos os elementos, o que mais me chamou atenção foram os princípios comunitários e coletivos que claramente contrastam com o individualismo ocidental que fomos educados.

Posso citar alguns desses princípios que ilustram esse coletivismo:

  • O erudito que não usa sua inteligência para o bem e alegria da comunidade é um “besta” (nas palavras dos autores). O conhecimento só faz sentido quando serve à vida em comum.
  • O mal é tudo aquilo que prejudica outras pessoas, que ameaça a paz e que ameaça a sobrevida do grupo.
  • Não é o criador quem define a ordem moral. A moral é criada pelos ancestrais.

Essa atenção dada ao social não surge por acaso. Ela vem da própria compreensão da estrutura da realidade, que se sustenta na energia vital cósmica (axé, mooyo, nyama). A qualidade dessa força vital define a hierarquia dos seres: no topo está o Criador, de quem emana o axé. Logo abaixo vêm os ancestrais, que funcionam como elos, transmitindo essa energia para os humanos vivos. E nós, por nossa vez, devemos cuidar e sustentar essa força para poder passá-la adiante aos nossos descendentes. Em sua vida, o homem deve captar ao máximo essa energia. A desobediência à regras do mundo invisível gera distúrbios individuais e sociais.

Em outras palavras, a relação do indivíduo com a comunidade e com seus ancestrais está ligada pelo axé, que dá sentido e consistência à sua visão de mundo.

SEMELHANÇAS
As religiões e escolas esotéricas egípcias influenciaram não apenas o ocidente mas também o próprio continente africano. Não sou especialista mas acredito que esse é o motivo de encontrarmos algumas semelhanças entre o pensar africano e as linhas de pensamento ocidentais.

Coloco abaixo alguns exemplos para ilustrar essa semelhança.

  • A tradição africana dirá que quando se pensa uma coisa e e se diz outra, quebra-se a harmonia em nós, rompe-se a união com o cosmos, nos separamos de nós mesmos. É muito parecido com o que encontramos na mística cristã.
  • Ou então, quando leio que “toda função artesanal deve estar ligada a um conhecimento esotérico”. Logo me vem à mente a Antroposofia.
  • A própria tradição oral me lembra os sutras memorizados na Índia, dos mantras budistas e de histórias indígenas brasileiras transmitidas de geração em geração.
  • Também me remeto ao orientalismo quando leio os autores afirmarem que nas tradições africanas “a transmissão oral não só transmite conhecimento, mas põe em movimento forças que estavam dormentes.”

Entendo que os autores querem defender um autêntico pensar africano. Mas, no fim das contas, percebo que há semelhanças com culturas do mundo todo — e é justamente nessa semelhança que está o ponto mais importante: existe uma unidade entre todos os povos, nações e raças. As semelhanças revelam que, no aspecto mais fundamental do ser humano, somos todos iguais. Isso é essencial para o leitor não se deixar cair numa certa aura ideológica que envolve o livro. Porque, no fim, qualquer religião ou filosofia que cria divisões e separa as pessoas merece ser deixada de lado. Afinal, como vemos na própria filosofia africana, o axé se mantém na coletividade. O que divide, enfraquece.

COMENTÁRIOS
O leitor deve ficar prevenido de alguns pontos:

  1. O prefácio do livro, escrito por uma convidada, é bem fraco e destoa de toda a obra.
  2. Os autores esqueceram de citar as influências islâmicas. Por exemplo, ao falar do mundo terrestre utiliza a palavra árabe dunya que encontro nos livros que leio do sufismo islâmico.
  3. Usuários da internet relatam que o livro pode conter pequenas imprecisões em temas específicos como a tradição yorùbá e Ifá, mas não chegam a comprometer a credibilidade.
  4. Os autores poderiam deixar claro quando estão adicionando interpretações pessoais (e portanto já ocidentalizadas) e quando a informação é original. Por exemplo, a explicação do papel da tradição oral, do Verbo/Logos, é bem parecida com o que encontramos em algumas linhas ocidentais cristãs. Não sabemos se estão sendo fiéis à tradição original ou se estão adaptando para melhor compreensão do leitor.

Para encerrar o post, é interessante notar que os autores recorreram ao método escrito (um livro), para transmitir uma tradição africana que, por essência, é oral. Um verdadeiro paradoxo. Mesmo assim, vá em frente e receba o axé. ⚡❤

Um grande saravá para você e boa leitura!

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PAULO HENRIQUE ARAUJO

paulo@meditecomigo.org

Moro em Recife. Desde cedo trabalhei e empreendi em vários segmentos dentro e fora do Brasil. Quando morava na China percebi que deveria dar mais atenção ao caminho espiritual. Além dos cursos e das práticas, os livros também ajudaram na minha jornada. Compartilho aqui alguns resumos na esperança que eles também lhes sejam úteis. Para ver todos os posts de Paulo clique aqui.

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