THE HISTORY OF BUDDHIST THOUGHT

Sub-título: A origem das espécies nas Américas

Tudo evolui, inclusive as religiões. Alguns grupos religiosos evitam a renovação, optando por se manter mais próximos dos ensinamentos originais. As religiões baseadas em textos escritos conseguem oferecer alguma resistência às inevitáveis mudanças que vêm com o tempo.

Esse não é o caso do budismo, que inicialmente foi transmitido oralmente. O Buda (Siddhartha Gautama) não deixou nada escrito, o que impossibilitou a preservação exata de seus ensinamentos. Apenas 200 anos após sua morte, já existiam 17 variações do budismo.

O budismo que conhecemos hoje, 2.500 anos depois, não é mais aquele ensinado pelo Buda.

Este livro, do acadêmico inglês Edward Thomas, traça, em 316 páginas, a evolução das ideias budistas desde sua origem.

CONTEÚDO
O autor começa explorando as religiões e ideias que permeavam a cultura no momento em que o Buda nasceu (século VI a.C., no reino de Kapilavastu, onde hoje é o sul do Nepal e norte da Índia). Já existiam os Brahmanas, os Upanishads, o Jainismo e o Samkhya. Da Yoga, o budismo herdou a valorização da moralidade, do conhecimento e a importância de desenvolver a capacidade de concentração. Não há dúvidas entre os estudiosos de que o budismo também absorveu conceitos do hinduísmo, como a crença no renascimento e a noção de karma.

Outros conceitos que já existiam antes do Buda, e que anotei de forma objetiva, incluem:

  • A ideia de evolução.
  • Reencarnação.
  • Celibato como forma de alcançar a pureza.
  • Treinamentos, especialmente de controle mental, focando a mente em um ponto.
  • O conceito de alma (Atman), que entrava e saía do corpo entre diferentes vidas.
  • A ideia de que três seres se encontram no plano astral para dois deles darem luz ao terceiro.
  • Transmigração.
  • A crença na unidade: Deus (Brahman) é o self.

Ainda há controvérsias sobre algumas ideias:

  • A teoria da causalidade, pode ter sido uma influência de Samkhya e não necessariamente uma ideia original do budismo. Estudiosos sustentam que a teoria da causalidade se aplica apenas ao entendimento de que todo sofrimento tem uma causa. Fora desse contexto, essa teoria não se aplicaria.

MAS O QUE PODEMOS AFIRMAR SER CARACTERÍSTICO DO BUDISMO?
É impossível citar um único ensinamento do Buda, pois, como mencionado, ele não deixou nada escrito. No entanto, podemos identificar as “inovações” introduzidas nas regras de convivência da comunidade formada pelo Buda ou por professores respeitados que surgiram posteriormente. As principais inovações trazidas pelo Budismo incluem:

  • A teoria de que a iluminação pode ser alcançada em vida.
  • As Quatro Nobres Verdades (1: A vida, é permeada pelo sofrimento. 2: A causa do sofrimento é o desejo e o apego. 3: É possível superar e acabar com o sofrimento. 4: O caminho para cessar o sofrimento é o Nobre Caminho Óctuplo.)
  • A ideia de que o todo é mais do que a soma das partes (século III a.C.).
  • A busca moral como condição necessária para atingir um alto nível mental.
  • A importância de boas ações com o corpo e através da fala, atenção plena, gratidão.
  • Não matar nenhum ser vivo.
  • Não roubar.
  • O abandono de bens materiais, músicas, danças, adornos, vaidade, e aromas.
  • A única coisa que permanece na transmigração é a consciência.

Algumas ideias características do budismo surgiram como negação ou complementação de conceitos já existentes, como:

  • A possibilidade de, através do aperfeiçoamento, rompermos com a roda do samsara.
  • O Nirvana, ou liberação, que é possível alcançar em vida.
  • O quarta nobre verdade, isto é, a superação do sofrimento humano é viável em vida através do método do Nobre Caminho Óctuplo, que corresponde a: visão correta, intenção correta, fala correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta e concentração correta.
  • Ao morrer, na próxima encarnação, você se tornará algo compatível com seu último pensamento, seus méritos e o nível espiritual que alcançou nesta vida.
  • A salvação é o aniquilamento do karma pessoal.

IDEIAS TARDIAS
A solidificação e o desenvolvimento das ideias iniciais propostas pelo Buda não ocorreram enquanto ele estava vivo. Seu impacto direto foi pequeno. Suas ideias se espalharam apenas entre os séculos III a.C. e I d.C. Nesse período, ocorreram mudanças significativas, como:

  • Novas teorias que nunca foram lançadas pelo Buda.
  • A ideia de se tornar um asceta em busca da salvação foi substituída pelo desejo de atingir o estado búdico ou de Bodisatva, um estágio logo antes da iluminação.
  • Sabendo da existência dos Bodisatvas e de que eles estavam dispostos a ajudar as pessoas, o povo começou a adorá-los em busca de favores. O povão não perde tempo :)
  • Para os populares, o Buda ganhou status de divindade, como um deus.
  • É também nessa época que surgiu a ideia de que um ser elevado encarnará na Terra em algum momento no futuro. Começou-se a esperar por Maitreya, o próximo Buda a encarnar em nosso planeta.
  • Foi nesse período que surgiram os mantras, textos e versos com função mágica (para afastar espíritos malignos, fazer chover, promover vida eterna, com função medicinal). Entre eles, o famoso “Om Mani Padme Hum”.
  • Durante esse período, entre o século III a.C. e o I d.C., os monastérios budistas perderam parte de seu caráter comunitário e passaram a ser centros de educação.
  • O surgimento de diferentes interpretações dos ensinamentos do Buda, dando origem às diversas linhagens.

RECOMENDAÇÕES
Algumas observações são importantes para quem se interessa em ler “The History of Buddhist Thought“:

Este livro não vai lhe ensinar budismo; é necessário ter algum conhecimento prévio. A leitura não é empolgante. O leitor encontrará uma quantidade considerável de termos e nomes em sânscrito. O livro não é original e existem diversas obras publicadas que comparam o hinduísmo com o budismo.

Neste livro, o autor focou no período inicial, com as regras das primeiras comunidades budistas enquanto o Buda ainda estava vivo, e nos três primeiros concílios após a morte do Buda. O budismo na modernidade é abordado brevemente no último capítulo. O budismo se expandiu timidamente para o Tibete, China e Japão a partir do século I d.C., alcançando seu auge entre os séculos V e VII d.C. Para informações mais detalhadas sobre esse período moderno, será necessário buscar outras fontes, pois o que o livro oferece é superficial.

COMENTÁRIOS PESSOAIS
Um dos temas que não foi explorado pelo Buda é a natureza humana. Para minha surpresa, o Buda nada falou sobre se temos algo que chamamos de alma, self, ou mesmo se ele é permanente. O que você encontra no budismo sobre isso é um desenvolvimento posterior. Os budistas respeitados pensaram assim: Se o karma existe, deve haver alguma individualidade não perecível. O mesmo raciocínio se aplica à roda do samsara: Se podemos ssuperar a roda do samsara, algo deve continuar. Mas Buda, ele mesmo, nada falou sobre isso.

Me surpreendi ao descobrir que o budismo possui várias divindades em diferentes planos de existência. Não imaginava que isso existisse no budismo. Um exemplo é um ser chamado Yama, deus do inferno (niraya) e responsável pelas punições. No Budismo Theravada, ele é o juiz dos mortos; no Budismo Vajrayana, ajuda a derrotar os obstáculos espirituais; no Budismo Mahayana, Yama já não é mais um ser real e apenas representa o ciclo do renascimento e as consequências cármicas.

Outra coisa que me chamou bastante a atenção foi que os antigos budistas acreditavam que era possível alcançar a iluminação (estado de liberação) sem necessariamente seguir os ensinamentos e práticas budistas. Você já ouviu algum budista falar isso?

O livro é resultado de um trabalho minucioso. Foi maravilhoso poder ler e desfazer as ilusões sobre o budismo comercial que encontramos no YouTube e nas livrarias de aeroporto. Saí com uma imagem mais realista e positiva do que é o budismo.

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PAULO HENRIQUE ARAUJO

paulo@meditecomigo.org

Moro em Recife. Desde cedo trabalhei e empreendi em vários segmentos dentro e fora do Brasil. Quando morava na China percebi que deveria dar mais atenção ao caminho espiritual. Além dos cursos e das práticas, os livros também ajudaram na minha jornada. Compartilho aqui alguns resumos na esperança que eles também lhes sejam úteis. Para ver todos os posts de Paulo clique aqui.

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