Regras da vida cotidiana

Ao comprar “Regras da vida cotidiana” eu esperava encontrar regras semelhantes às que vi no livro “A instrução dos principiantes” de Hugo de São Vítor que contém as normas de conduta do famoso mosteiro da França do Século XI. Eram normas externas, regras bem definidas como que as regras de nossos avós: Sente-se assim, fale na sua vez, não balance as pernas etc.

No entanto, descobri algo complementar. Em “Regras da vida cotidiana” encontrei regras para o homem urbano contemporâneo que não pode se retirar da sociedade deslocando-se a um mosteiro. Que não quer mais sua vida sendo levada por forças anímicas e inconscientes. Ele quer consciência, quer ser regido pelo seu próprio pensar, quer coerência (fazer o que pensa). Para este homem livre, as regras que direcionam o pensamento se tornam então as regras que direcionam a vida. Ou como diria o autor Louis Lavelle (1883-1951), “As regras do pensar são elas mesmas as regras da vida cotidiana”.

ORGANIZAÇÃO
O livro não foi publicado por Lavelle. Foi organizado por sua filha em 2004, 53 anos depois da morte do pai. Consiste numa coletânea de pensatas distribuídas em 21 capítulos pequenos e independentes. A fonte grande, as linhas esparsas, o vocabulário simplificado permitem ao leitor uma leitura rápida.

ORIGINALIDADE
Apesar do pensar ser o determinante de nossas ações diárias, para Lavelle, o pensamento não é um fim em si mesmo. Ele argumenta que o pensamento não deve se limitar à filosofia, à construção mental lógica ou ao pensamento abstrato. Em vez disso, o pensamento deve refletir a atividade do espírito. Lavelle quer um pensamento iluminado pela luz divina.

Não há originalidade nessa ideia principal. É o mesmo que diria São Tomás de Aquino, que a razão poderia ser iluminada pela fé e pela revelação divina. É algo semelhantes à filosofia da liberdade de Rudolf Steiner ou semelhante ao caminho oriental como chamou René Guenón, ou a filosofia da iluminação em Suhrawardi. E até mesmo como os chineses e gregos que adotavam uma observação incondicional da natureza.

Não só a ideia principal não é original, bem como vários de seus apelos. Citarei alguns:
– A necessidade de serenidade.
– A importância de nos direcionarmos ao que há de mais puro.
– A evitação de qualquer método pois com estes sempre haverá interferência do ego.
– A necessidade de vivermos em presença.

Em resumo, Lavelle fala das mesmas coisas que muitas outras fontes. Contudo, a força de Lavelle reside em sua capacidade de provocar reflexão de forma autêntica e acessível, em contraste com abordagens mais dogmáticas, frias ou intelectualizadas. Lavelle é um filósofo espiritualista sem ser metafísico. É perspicaz mas com simplicidade. É firme, mas com doçura. Lavelle é mais agradável e empático.

RECOMENDAÇÃO
“Regras da vida cotidiana” é leve e pode ser lido sem seguir uma ordem específica, proporcionando uma fonte constante de reflexão. Serve como uma excelente alternativa para leituras mais densas. É um complemento valioso para expandir a compreensão do leitor sobre a vida e o pensamento.

As regras propostas por Lavelle são livres e desvinculadas de escolas de ensinamentos. No entanto, ao lê-las, sentimos que falta algo que lhes dê maior fundamentação ou um pano de fundo. Vou usar uma imagem para me expressar melhor e finalizar meu resumo: “Regras da vida cotidiana” é como a cereja do bolo: uma adição saborosa, mas você ainda precisará do bolo para apoiar as cerejas.

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PAULO HENRIQUE ARAUJO

paulo@meditecomigo.org

Moro em Recife. Desde cedo trabalhei e empreendi em vários segmentos dentro e fora do Brasil. Quando morava na China percebi que deveria dar mais atenção ao caminho espiritual. Além dos cursos e das práticas, os livros também ajudaram na minha jornada. Compartilho aqui alguns resumos na esperança que eles também lhes sejam úteis. Para ver todos os posts de Paulo clique aqui.

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