O MÉTODO COGNITIVO DE GOETHE

Sub-título: Linhas básicas para uma gnosiologia da cosmovisão goethiana

Foi escrito por Rudolf Steiner em 1866 quando este tinha apenas 25 anos. Nessa época, Steiner ainda não tinha criado a Antroposofia, nem se envolvido com a Teosofia. Ainda era um estudante cujo professor lhe encarregou de escrever uma introdução aos escritos científicos de Goethe (Frankfurt 1749-1832). Apesar de ser mais conhecido pela sua grande influência na língua alemã, Goethe era cientista, trabalhou um tempo com finanças do governo de sua época e levantou críticas ao sistema financeiro. Enfim, Johann Wolfgang von Goethe não era só um poeta. Ele detinha conhecimentos em diversas áreas.

Até sua época, os pensadores, cientistas e religiosos buscaram a vida e a existência fora da cognição. A chave da busca aqui é a cognição. Segundo Steiner, a contribuição filosófica a respeito da cognição que se extrai dos escritos de Goethe é o que ele deixou de mais importante. E essa contribuição filosófica foi totalmente esquecida, deixada de lado. Este livro vem preencher essa lacuna. Ele é a formalização de como funcionava seu pensamento, é a descrição de seu método cognitivo. De forma super resumida, este método propõe um caminho de abertura do cognitivo sensorial para então avançarmos no sentido de alcançar o cognitivo espiritual. E isso tem aplicações em todos os campos de atuação do homem.

É um método porque há um processo explícito. Tentarei resumir dezenas de páginas em um único parágrafo: O primeiro passo desse método é dado pelo intelecto. Ele separa tudo o que nos chega pelos sentidos físicos e atribui para cada parte um conceito. Faz essa separação através de regras que regem a lógica tais como causa e efeito, idéia e realidade, liberdade e necessidade, espaço e tempo. No segundo passo entra a razão que tenta colocar tudo em uma só unidade. Enquanto a razão não une, o processo cognitivo não finaliza. Podemos então dizer que a cognição se inicia com um movimento de separação seguido de uma união.

Esse é o funcionamento natural da mente. O método de Goethe é você não interrompê-lo.

ENTRANDO EM DETALHES
Steiner parte da discussão sobre o que é a realidade. Steiner é monista. Isto é, afirma que não há uma realidade fora do processo cognitivo. Ao mesmo tempo, a realidade não pode ser encontrada pela cognição pois essa realidade é criada pela própria cognição. Isso pode ser dito de outras formas que coloco a seguir.

  • “O que está no homem é aparência ideal, o que está no mundo perceptível é aparência sensorial; só a integração cognitiva de ambos começa a ser realidade.”
  • “O espiritual não se revela no interior do homem”.

Essa é um verdadeira afronta à crença da evolução pelo caminho da busca interior. É um choque para o pensamento Nova Era característico de nossa sociedade. Só isso daí já nos bota para pensar um bom tanto.

É um livro também para os céticos. Frases como a seguinte os colocará para pensar.

“Se alguém com uma rica vida anímica vê milhares de coisas que para o pobre de espírito constituem um nada, isto é uma prova, tão clara quanto o Sol, de que o conteúdo da realidade é apenas o reflexo do conteúdo do nosso espírito, e de que nós apenas recebemos, de fora, a forma vazia.”

No primeiro capítulo o autor investigará a experiência sensória. Até aí nada de novo ou de interessante. Mas a coisa muda nos capítulos seguintes quando o autor investigará o intelecto e a razão. Diz ele que o pensar se destina a observar algo superior ao que os sentidos oferecem:

  • “O pensar não existe para ruminar o que é acessível aos sentidos, mas para penetrar naquilo que está oculto para eles.”
  • “O que identifica qualquer objeto ou ser vivo não vem do mundo sensível.”
  • “Quem apreende a realidade apenas intelectualmente afasta-se dela.”

O processo natural da mente não deve ser interrompido. Steiner propõe uma observação desinteressada que elimina todas as afirmações prévias. Ele não observa os objetos e os seres de uma única maneira como faz a ciência comum. A ciência comum observa encaixando na natureza os seus conceitos. Ou seja, ele não “projeta” no observado.

OS 3 MÉTODOS
Diferentemente dos pensadores da sua época, Steiner dirá que a mente é um órgão que percebe os pensamentos e não que os produz através de um ato consciente. Esse perceber é bem característico. Perceber um conceito final fixo estático não importa para Goethe e Steiner. Para eles importa mais perceber como esse algo se desenvolve. Importa mais perceber sua relação com o todo, a origem e sua evolução. Daí podemos então falar de 3 métodos.

O primeiro é o método científico convencional ao qual importa o conceito final fixo estático. Este método se aplica à observação da matéria inorgânica, sem vida. Mas esse método não deve ser aplicado à observação dos seres orgânicos. A observação da matéria orgânica requer um segundo método científico que ele chama de “método evolutivo“.

Além desses, o autor sugere um terceiro método aplicado às Ciências Humanas. Este método lida com conteúdo espiritual, com a individualidade humana, com as criações da cultura, da literatura e da arte. O homem não é determinado por leis externas de causa e efeito como observamos na ciência da matéria inorgânica, nem em generalidades da matéria orgânica. Para observar o homem, devemos partir do particular e chegar na generalidade. Dessa forma teremos um melhor entendimento e método para as Ciências Humanas.

RECOMENDAÇÃO
A leitura não é relaxante. Mas quando comparado com os livros tardios de Steiner, esse é “fácil de ler”. E isso se dá por dois motivos. Primeiro porque Steiner ainda não tinha desenvolvido os conceitos mais complexos da Antroposofia. Segundo porque o autor coloca de lado todo e qualquer conhecimento prévio sobre o assunto. Sendo assim, você não precisará saber nada sobre Goethe, Kant, sobre gnosiologia. Ele parte do zero absoluto.

Pude traçar alguns paralelos entre conceitos de li e qi dos neo-confucionistas, ou do olhar não condicionado dos taoístas e até de interpretações do método platônico. Há muita similaridade com a filosofia Samkhya. Achei uma falha quase que imperdoável de Steiner não ter feito esses paralelos na edição revisada em 1923, com 62 anos, quando já tinha tido contato com o pensamento oriental. De qualquer forma, esse livro apresenta um pensamento estruturado com proposta completa, sem qualquer misticismo ou religião, sem necessidade do leitor ter desenvolvido capacidades supra-sensíveis.

Diz Steiner que o que está aqui nesse livro é o fundamento para se compreender toda Antroposofia. Eu acho que o encontramos nesse livro é mais do que isso. Este livro lhe dá um fundamento para você olhar para TUDO de uma outra forma e não apenas entender a Antroposofia. Eu mais que recomendo.

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Áudio introdução à ciência de Goethe. Em português (19 minutos)

Sobre Goethe. Muito bom. Em inglês. Infelizmente sem legendas. (1 hora e 36 minutos)

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A Filosofia da Liberdade

O livro que funda o pensar Antroposófico de Rudolf Steiner.

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PAULO HENRIQUE ARAUJO
Moro em Recife. Desde cedo trabalhei e empreendi em vários segmentos dentro e fora do Brasil. Quando morava na China percebi que deveria dar mais atenção ao caminho espiritual. Além dos cursos e das práticas, os livros também ajudaram na minha jornada. Compartilho aqui alguns resumos na esperança que eles também lhes sejam úteis. Para ver todos os posts de Paulo clique aqui.

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