A NOVA CIÊNCIA DA POLÍTICA

O autor alemão naturalizado americano Eric Voeglin (1901-1985) é considerado um dos principais filósofos de nossa época. Uma de suas áreas de interesse é a veracidade das experiências religiosas. Ele dizia que filosofia começa com a experiência do divino. Outra área de interesse é a política e história.

Ele relaciona religião, filosofia, política e história em sua obra “A nova ciência da política” que é considerado um dos seus principais trabalhos. Esse livro é como uma porta de entrada à suas inúmeras publicações.

Escrevi abaixo um resumo do que encontrei de mais relevante. Ao final da leitura, brincava que Eric Voeglin conseguiu traçar as origens da Matrix.

REQUISITOS PARA LEITURA
Antes de entrar no conteúdo do livro, você precisa saber o que é gnosticismo. Vou tentar colocar aqui.

Criado em data incerta, talvez entre o século I e II D.C, o gnosticismo teve altos e baixos ao longo da história. Quase dois mil anos depois, no século XIX, o gnosticismo ganha força com a difusão da Teosofia de Blavatsky e com certos documentos encontrados no Egito em 1945 (não confunda esses documentos com os do mar morto).

O termo gnosticismo não se aplica a uma única organização. Ele se refere a vários grupos e seitas que compartilham características tais como:

– Misturam conhecimentos antigos diversos, filosofia e diferentes religiões.
– Não se pautam por um livro de profeta e procuram o conhecimento de si próprio a partir de experiências pessoais. Sendo assim, são práticos.
– Dispensam cerimônias e liturgias
– Esse conhecimento interior não se adquire de forma racional, mas intuitivamente e transcendental. Para isso é preciso uma mente serena e estável.
– Não acreditam na salvação por meio da morte e ressurreição de Jesus Cristo
– Não acreditam em pecado, em anjos ou demônios
– Acreditam que todos os homens possuem uma essência imortal
– Não há fé. Há especulação intelectual.
– Não há um Deus transcedental. Na gnose, Deus está dentro de nós e assim temos a possibilidade da auto-salvação.

Gnosticismo é hoje o que chamamos de “esoterismo ocidental”.
Não tenho dúvidas que o gnosticismo é um tronco de onde brota a Nova Era, já comentada aqui no MediteComigo.

RESUMO
Desde a queda do império romano, e posteriormente com a consolidação dos reinos nacionais quebra-se o vínculo entre a religião dominante (Catolicismo) e política. Foi o que aprendemos na escola.

O que não nos ensinaram é que a nova liderança política que assume o estado são pessoas reais, de carne e osso que não conseguem simplesmente eliminar de sua mente, de seus valores as influências espiritualistas. Essas pessoas que assumiram o poder do estado não representavam uma instituição religiosa, mas traziam valores e forma de pensar gnóstica.

O gnosticismo nunca foi institucionalizado. Era como uma vegetação espalhada nas tradições, na cabeça das pessoas. Algumas vertentes são mais intelectualizadas, outras emocionalmente apelativas. Na esfera política, eixo central do livro, sua influência criou variantes ideológicas como o Positivismo(o conhecimento científico é o único conhecimento válido), o Cientificismo(a ciência é superior a outras formas de conhecimento como religião ou filosofia) e o Progressivismo(é o avanço científico, tecnológico, econômico e comunitário que aperfeiçoam a condição humana).

Os religiosos querem o céu e os gnósticos a sociedade perfeita. Na religião, a via de salvação se dá através da devoção e da santificação da vida. Já na gnose, a salvação se dá através da física, da economia, da biologia, da psicologia e incluiria eu, da tecnologia, e hoje em dia, da inteligência artificial.

Enquanto os religiosos tradicionais falam de transcedência como fim, o pensamento gnóstico troca esse “fim” por uma evolução sem fim. Segundo o autor Eric Voegelin, esta é uma ideia fantasiosa e deslocada da realidade pois tudo chega ao seu fim. Não há evolução sem fim. Mas o pensamento gnóstico não dá espaço para você optar entre transcedência ou evolução. Ela se impõe pela autoridade (lembre-se da separação religião-estado) como alternativa vitoriosa, a única aceitável e quem discordar sofrerá punições. É exatamente como faz a ciência. Ela nos impede de abrirmos os olhos. Quando muita gente pensa igual forma-se um senso de segurança e verdade.

E quando os mais despertos questionam, a resposta do sistema é a desaprovação, a condenação moral, chamá-los de charlatões, de agressores e até inimigos da humanidade.

O quadro social resultante do gnosticismo e esboçado por Eric Voegelin tem a seguinte cara:

– O analfabetismo filosófico (atenção terapeutas!)
– O embotamento espiritual (atenção cientistas!)
– A sofisticação científica materialista fechada em um mundinho deles próprios (atenção universitários!)
– Uma civilização que se move por atrito, por reação e não orientada por um norte definido.
– A opinião irresponsável baseada em convicção sincera. Ou seja, a pessoa fala o que ela acredita sem fundamento, sem medir as consequências. (atenção influenciadores!)
– A moral gnóstica não “vem de cima”, ou seja, não é mais uma iluminação do espírito. A moral passa a atender interesses pessoais, do estado, materiais.
– A falsificação da história
– Pessoas motivadas por paixões pessoais e não por propósito divino.
– O “progresso” gnóstico priorizou outras coisas e já não há espaço para uma vida espiritual.

Voegelin afirma que a sociedade encontra-se então num estado de paralesia intelectual e emocional correndo de um lado para o outro. Entre uma esquerda política e uma direita política. Ambas farinha do mesmo saco. Por um lado, a direita política quer a acomodação da realidade aos seus ideais em uma evolução gradual (forças invisíveis de auto-regulação do mercado). Por outro lado, a esquerda política quer essa acomodação de seus ideiais aconteça de imediato (intervenção pela força do estado). Entre esses dois lados sempre haverá tensões que só se resolvem pela força. A guerra surgirá como meio de balancear forças políticas crescentes. Quando uma guerra começa, o sistema inicia uma abordagem hipnótica na população de panos quentes a favor da paz e ordem mundial tirando o foco que o problema é próprio sistema em si!

Só houve uma área que sobreviveu à influência gnóstica: a natureza humana. Isto é, o próprio objetivo de pesquisa do gnosticismo. E é aí que nasce a resistência de movimentos religiosos autênticos. Dou ênfase na palavra autêntico pois a gnose penetrou até mesmo nos movimentos religiosos. Há gnoses judaicas e até mulçumanas. No Brasil, destaco a Teologia da Libertação que mesmo condenada pelo papa Joseph Ratzinger (Bento XIV) ainda mantém apoiadores ativos.

RECOMENDAÇÃO
O texto é muito interessante, mas nada agradável. A linguagem e termos utilizados são característicos das ciências sociais. É atualíssimo.

E você? Reconhece que carrega traços gnósticos ou da Nova Era que te amarram e que contribuem com a Matrix?

links externos sugeridos pelo autor DESSE POST:

  • Os manuscritos de Nag Hammadi

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Biblioteca_de_Nague_Hamadi

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PAULO HENRIQUE ARAUJO

paulo@meditecomigo.org

Moro em Recife. Desde cedo trabalhei e empreendi em vários segmentos dentro e fora do Brasil. Quando morava na China percebi que deveria dar mais atenção ao caminho espiritual. Além dos cursos e das práticas, os livros também ajudaram na minha jornada. Compartilho aqui alguns resumos na esperança que eles também lhes sejam úteis. Para ver todos os posts de Paulo clique aqui.

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