Se você é espiritualista e tem filhos em idade escolar, uma hora irá se deparar com o assunto “Paulo Freire”. E nesse tema, seja em conversas com amigos, professores e vídeos do Youtube, só se encontra informação superficial e tendenciosa. Por isso, resolvi encarar e ler Pedagogia do Oprimido. Escolhi essa por ser a obra de Paulo Freire mais citada e que sintetiza suas ideias principais.
Tento então nesse resumo contribuir com informações além da superficialidade para que você tenha mais elementos para sua própria avaliação.
O post é longo. Desculpe.
HISTORICIDADE
As ideias de Paulo Freire aparecem pela primeira vez em sua tese de doutorado em 1959. E o contexto dessa época é algo que não pode ser desconsiderado. Explico.
Naquele período, 55% da população brasileira vivia em áreas rurais (hoje, esse número caiu para apenas 13%). O índice de alfabetização também era bem diferente, tendo dobrado desde então. Além disso, praticamente não existiam direitos trabalhistas como os conhecemos hoje. A lei trabalhista (CLT), criada em 1943, evoluiu bastante ao longo dos últimos 82 anos. A TV havia acabado de chegar no Brasil.
Enfim, o Brasil em que Paulo Freire se baseou era bem diferente do Brasil de hoje.
O cenário internacional do pós-guerra também era outro. Houve um florescimento das ideologias de esquerda por todo o globo. Os cursos de Ciências Sociais, surgidos em São Paulo nos anos 1930 e consolidados nas décadas de 1950 e 1960, refletiam essa visão de mundo e continua até hoje nas universidades brasileiras. Paulo Freire estava inserido nesse universo, bebeu dessa fonte e surfou nessa onda.
TEMPOS MODERNOS
Em Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire cita personalidades como Che Guevara, Mao Tsé-Tung e Lênin. Não posso condená-lo por isso, uma vez que o mundo só veio a conhecer o fracasso do socialismo bem mais tarde.
Ainda hoje, há muitos intelectuais que concordam com métodos violentos para se chegar e se manter no poder. Normalmente são pessoas materialistas e com baixo nível de compaixão.
Porém, religiosos, pessoas em seu desenvolvimento espiritual ou com alguma preocupação ética não aceitam a violência como exemplo a ser seguido. Para esses, assim como para mim, é necessário separar o que presta e o que não presta em Paulo Freire.
IDEIAS PEDAGÓGICAS PRINCIPAIS
Pedagogia do Oprimido trouxe muitas ideias inovadoras para sua época. À medida que eu lia suas páginas, fazia anotações e pesquisas paralelas. Descobri que nem tudo é dele. Na verdade, pouca coisa é.
Em algumas entrevistas disponíveis no Youtube Paulo Freire reconhece ter usado ideias de terceiros. Ele não diz quais e nem dá os créditos em seu livro.
Faço abaixo uma lista de conceitos presentes em Pedagogia do Oprimido que não podem ser atribuídas a ele.
Paulo Freire era poliglota, fluente em 4 línguas. Condessou o que existia de ponta na época e colheu frutos por isso. Teve acesso a esses conceitos acima e muita gente não teve. Livros como de Antonio Gramsci só foram abertamente traduzidos para o português nos anos 80. Theodor Adorno e Max Horkheimer entre 1970 e 1980. Fico com a impressão de que Freire ganhou fama por divulgar essas ideias antes que outros pedagogos tivessem essa oportunidade. Mesmo quando havia traduções, a ditadura restringia a circulação desses conteúdos.
Mas, afinal, sobrou algo que podemos considerar genuinamente original em Paulo Freire?
Sim.
ORIGINALIDADE
Em Paulo Freire, podemos destacar duas ideias genuinamente originais:
O método da criação de palavras (“temas geradores”) – Esse método define palavras retiradas do universo do aluno como ponto de partida para o trabalho do professor. Com isso, o aprendizado se torna mais concreto e acelerado. A explicação detalhada do método ocupa 51 páginas do livro. No entanto, essa inovação tem um custo: especialistas apontam que a educação deve preparar o aluno para o pensamento abstrato, algo que não é plenamente atingido pelo método de Freire.
A relação dialógica entre educador e educando – Freire rompe com a visão tradicional de que o educador é a única fonte de saber e o aluno um receptor passivo. Ele propõe uma educação baseada no diálogo e na colaboração, onde ambos aprendem e crescem juntos.
MITO
É um mito que Paulo Freire tenha alfabetizado pessoas em 40 horas. O que ele fez nesse período foi introduzi-las a um conjunto restrito de símbolos, o que não equivale à alfabetização completa. Alfabetizar significa mais do que apenas reconhecer letras e palavras; envolve a capacidade de ler, coordenar palavras minimamente e interpretar textos.
Além de enganar os desavisados, esse mito é prejudicial porque desvia o foco do verdadeiro propósito de Paulo Freire. Ele não buscava um método rápido de alfabetização. Seu objetivo era maior: promover a conscientização, transformação social, liberdade e autoestima. Performance sequer aparece como preocupação no livro Pedagogia do Oprimido.
CONTEÚDO
Além da visão pedagógica, quero destacar dois itens que são base para a Pedagogia do Oprimido.
A preocupação humanista de Paulo Freire – Ele rejeita o opressor, que sempre enxerga o outro ser humano como uma coisa, uma peça dentro do sistema produtivo. Para Freire, o homem deve ser visto como um ser pensante, que participa da própria libertação e também da libertação de quem o observa. Apesar de ser uma visão positiva, ainda se mantém dentro de um viés materialista. Algumas correntes espiritualistas vão além e buscam enxergar o homem como espírito.
A concepção de liberdade – Para Freire, libertação significa romper com o sistema e se perceber como um indivíduo capaz e atuante. Significa sair da passividade, do automatismo imposto pelo sistema opressor. A força libertadora, segundo ele, é o intelecto, a razão, a mente concreta. Essa perspectiva se alinha à mentalidade europeia do Iluminismo do século XVIII e do Positivismo. No entanto, algumas escolas religiosas, tanto orientais quanto ocidentais, entendem a libertação de forma mais ampla: como uma abertura para que algo superior alimente o ser humano com intuições.
CURIOSIDADE
Por um lado, vejo Paulo Freire como um autêntico homem de sua época. Mas em outros momentos ele parecia um profeta antecipando o futuro. Selecionei algumas de suas profecias. Vejamos:
RECOMENDAÇÃO
Não posso recomendar Paulo Freire por alguns motivos.
Sua escrita é extremamente prolixa, e a repetição exacerbada tem efeito hipnótico, dificultando a criação de um espaço real para reflexão. Paulo Freire expõe apenas o seu lado, não traz ao leitor pontos de vistas contrários que estimularia a criticidade do leitor. Freire pratica o “conteudismo” que ele tanto condenava. Mas tudo bem, segundo ele, “Você chama o outro aquilo que você é” (pág. 197).
Ele repete palavras como luta, revolução, violência, opressão literalmente em todos os parágrafos. Não são palavras com mero sentido figurado. Freire sugere que as massas devem demonstrar sinais de agressividade (pág. 199). E vai além: na página 233, ele afirma que “a revolução é criadora de vida, ainda que seja obrigada a deter vidas”. Me desculpe, caro leitor, mas “deter vidas” – ou seja, matar pessoas – é inaceitável, e nenhuma pedagogia pode justificar isso. Não há margem para uma interpretação benigna aqui.
É uma pena que uma proposta educacional voltada à liberdade e ao pensamento crítico tenha sido misturada com ideologia política. Infelizmente o espaço de diálogo que se desejava criar virou ele próprio espaço de manipulação.
Se você tem interesse em uma pedagogia libertária e menos materialista procure outra pedagogia.
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paulo@meditecomigo.org
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