THE CULT OF NOTHINGNESS

Sub-título: The philosophers and the Buddha

Antes de ler este livro eu achava que o Budismo tinha chegado à Europa através de europeus que em suas viagens acabaram se convertendo e trouxeram as práticas ao seus países de origem. Eu estava errado.

O Budismo chegou na Europa pelos filósofos e intelectuais que se depararam com algo totalmente novo. O Budismo traz a negação da existência desse mundo como o vemos. Nega a permanência de qualquer coisa, diz que tudo acabará. No final, o que existe para o Budismo é um vazio: viemos do nada e ao nada voltaremos. O vazio é a única realidade. Essa foi a ideia que marcou o entendimento do Budismo por muito tempo: uma religião de culto ao nada, ao vazio. Daí o título do livro.

O francês Roger Pol Droit, é acadêmico especialista em Budismo. Ele apresenta em seu livro a história da interpretação do Budismo no ocidente.

CONTEÚDO
Levou 2300 (dois mil e trezentos) anos para o ocidente começar a olhar para o Budismo. Antes disso sabia-se de trechos soltos, da existência de monges ascetas, mas como conhecimento unificado e organizado só a partir de 1820.

Assim como nos dias de hoje, os intelectuais daquela época tomaram o caminho fácil para interpretar o universo religioso: o sincretismo. Misturavam a figura do Buda com a de Vishnu, Shiva e até mesmo de mitos como Mercúrio, Thoth do Egito ou até mesmo com Hermes da mitologia grega.

A medida que os estudos foram avançando, em 1817, descobriram que Buda não era um mito mas uma pessoa real e com isso veio um erro: comparar Buda com Jesus.

A tentativa de enquadrar o Budismo como um religião estruturada assim como o Cristianismo não “colou”. O Budismo não falava de Deus, não trazia leis dadas pelo divino via revelação. O Budismo se tornou conhecida como religião da destruição do self, do aniquilamento da consciência, algo impossível de se atingir.

Em 1832, na França, é criado o primeiro curso de sânscrito capacitando seus alunos a realizar novas traduções de textos budistas até então impossíveis de serem lidos. Mas o conhecimento que surge desses estudos não foi suficiente para vencer o preconceito da época que tinha o oriente como um lugar de bárbaros, de práticas do mal. O Budismo era um erro, algo a ser evitado.

O primeiro a levantar a bola que no Budismo havia um valor filosófico foi Hegel (1770-1831). Foi ele quem viu que ali havia algo como um caminho para Deus. Com Hegel, o Budismo além de religião era filosofia. Outro filósofo que saiu em defesa do Budismo foi Schopenhauer (1788-1860) mas mesmo assim interpretava esse vazio budista como uma renúncia e negação da vontade de viver.

Essa visão negativa e incompreensível sobre o vazio continua e tem seu auge em 1863 quando começa a surgir interpretações positivas. Um dos que trouxe algum entendimento positivo do Budismo foi Nietzche (1844-1900). Mas ele era contrário ao Budismo e teceu comentários positivos apenas quando o Budismo podia ser utilizado como crítica ao Cristianismo. Nietzche criou uma imagem da comunidade budista que existe até hoje: natureza, alimentação vegetariana, onde as pessoas vivem em repouso, feito uma clínica terapêutica para depressão. Nietzche dizia que o Budismo era prática de classe dominante e que levava ao niilismo (rejeição de valores tradicionais, ceticismo em relação à verdade absoluta e descrença no propósito da vida).

Nessa época, a mentalidade do europeu já estava afetada pelos ideais comunistas. O Budismo, que não adotava a estrutura hierárquica das castas da Índia, passou a ser visto como uma revolta contra estruturas sociais, uma espécie de “luta de classes”.

O Budismo tinha regras: Não abandonar os velhos e crianças; Não matar animais; Não roubar, não mentir, nem qualquer outro ato impuro; Não beber. Karl Kopper (1902-1994) interpretou essas regras como uma revolução ética. Mas a proposta de igualdade entre todos os homens foi distorcida e misturada com aquela besteirada de busca pela raça Ariana, a raça perfeita.

A pesquisa do autor vai até o final do Séc XIX e início do Sec. XX quando muitos fatos relevantes aconteceram no mundo. O autor citará apenas o célebre discurso de Vivekananda em 1893 dando a impressão ao leitor que o mestre hindú foi o primeiro a trazer atenção para a necessidade de mais respeito por todas as crenças. Em verdade, foi na expansão do movimento Bahá’í (1863) que pela primeira vez, a mensagem de unidade da humanidade, a harmonia entre ciência e religião, e a igualdade entre homens e mulheres foram colocadas como princípio fundamental inegociáveis.

Acho importante tomar um pouco mais de espaço desse post para trazer outros fatos do universo religioso que foram mais relevantes no final do Séc. XIX: Crescimento de movimentos evangélicos, especialmente nos Estados Unidos e no Reino Unido. Os primeiros sinais do movimento pentecostais. As irmãs Fox em 1848. As mesas girantes na França. O surgimento do Espiritismo em 1857 com a publicação de “O Livro dos Espíritos” por Kardec. E com bastante repercussão temos em 1879 Blavatsky trazendo sua Teosofia à Europa.

As questões da virada do século eram outras. Os intelectuais perderam o interesse pelo Budismo mas ao mesmo tempo, essa nova mentalidade facilitou a aceitação do Budismo pelas pessoas comuns. Nasce nesse momento o que o autor chama de “Neo-Budismo“: o Budismo misturado com outras práticas e não mais visto como algo externo.

Suas últimas 70 páginas apresentam uma bibliografia cronológica das principais publicações sobre o Budismo de 1638 a 1890.

RECOMENDAÇÃO
O livro é único no conteúdo. Não tem igual. Mas é cansativo, arrastado, interminável. Não recomendo.
O livro poderia ser resumido em 60 páginas.

OPINIÃO PESSOAL
Para mim foi bom ter lido pois o óbvio ficou claro: O homem evoluiu, e com ele seu entendimento sobre o Budismo. A forma como entendemos as coisas é reflexo de nosso tempo. O importante é saber que aquilo que entendemos hoje sobre qualquer prática religiosa irá mudar.

Posso agora olhar para o comentário de Waldo Vieira sobre o Budismo (vídeo abaixo) e perceber que ali há vestígios de pensamento de uma época. Assim como identificar que a imagem do monge que foge para a montanha é uma forma de pensar de mais de cem anos atrás e que está aí até os dias atuais povoando a cabeça das pessoas.

Nossa opinião sobre as práticas religiosas não pode ser terceirizada. Só vamos entender aquilo que praticarmos. Sem nossa própria experiência cairemos no erro e no preconceito.

E você? A ideia que você tem do Budismo é do século passado ou é a atual da moda?

VIDEOS SUGERIDOS PELO AUTOR DESSE POST:

Comentário de Waldo Vieira (3 minutos). Parte de sua fala vem de uma forma de pensar do século XIX.

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A história do pensamento budista. As ideias iniciais, sua evolução e influências...

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PAULO HENRIQUE ARAUJO

paulo@meditecomigo.org

Moro em Recife. Desde cedo trabalhei e empreendi em vários segmentos dentro e fora do Brasil. Quando morava na China percebi que deveria dar mais atenção ao caminho espiritual. Além dos cursos e das práticas, os livros também ajudaram na minha jornada. Compartilho aqui alguns resumos na esperança que eles também lhes sejam úteis. Para ver todos os posts de Paulo clique aqui.

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