HISTÓRICO
A palavra ecumênico se referia, em sua origem grega (oikoumene), a tudo aquilo que era conhecido dentro do Império Romano. No âmbito religioso, a palavra ecumênico significava, na época, “toda a cristandade”, isto é, o conjunto de comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano.
O primeiro esforço ecumênico religioso cristão aconteceu no primeiro Concílio de Niceia, em 325 d.C. As divergências entre as comunidades cristãs ocorriam em torno da natureza de Cristo, da Trindade, de diferenças nas práticas litúrgicas, na estrutura organizacional e da aceitação do texto a ser seguido, uma vez que a Bíblia, organizada como a conhecemos hoje, só surgiria em 397 d.C. O imperador da época, Constantino, buscava a coesão dentro de seu império. O resultado desse esforço não foi bem recebido por todos, e muitos cristãos intensificaram sua saída do Império Romano. Os interessados nesse tema podem ler o post que escrevemos anteriormente sobre os padres do deserto.
Depois desse primeiro Concílio, houveram outros 11 concílios. Entre o penúltimo, em 1870, e o último concílio, passaram-se quase 100 anos.
Nesse ínterim, o mundo passou por muitos acontecimentos, como a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, o uso intensivo de eletricidade, a migração de zonas rurais para os centros urbanos, o uso de motores a combustão e processos de produção em massa, o surgimento do telefone, do rádio, a ascensão do comunismo, os direitos humanos, os direitos trabalhistas, os direitos das mulheres, a descoberta dos antibióticos, avanços na ciência e a descolonização da África. No espectro religioso, também houve mudanças, como a separação entre igreja e Estado em alguns países, como a França, o crescimento significativo do movimento evangélico e pentecostal nos EUA e na América Latina, a fundação de Israel e a expansão do budismo e do hinduísmo no Ocidente. Foi muita coisa. A igreja não podia continuar a mesma. Por isso, a importância do Concílio Vaticano II, ocorrido entre 1962 e 1965.
Este concílio abordou três principais temas:
O livreto que comento neste post é a súmula oficial desse terceiro tema.
CONTEÚDO DO LIVRO
Percebo no livro dois eixos de argumentação.
O primeiro deles é a reivindicação da Igreja Católica como o corpo de Cristo. Ela se coloca em um lugar central. Isso se dá sob a justificativa de que o apóstolo Pedro, durante o império de Nero em 64 d.C., escolheu a morte em vez de negar sua fé. Ele morreu em Roma e, por isso, a Apostólica Romana se vê como a autêntica e única herdeira sucessora. A Igreja Católica não condena as outras igrejas, mas afirma que elas não atingem a “plenitude católica”.
Para minha surpresa, o segundo eixo argumentativo traz uma mensagem muito positiva. O posicionamento da Igreja, assinado pelo papa Paulo VI, é que a unidade é necessária, mas a liberdade é indispensável. Não se pode condenar outras religiões; todos devem ter liberdade de escolha. O papa afirma que “a unidade será alcançada naturalmente e não por decreto”. Assim, em vez de condenar os demais cristãos e exigir que eles mudem forçosamente, o próprio católico deve assumir a responsabilidade da conversão, orando por seus irmãos (pentecostais, luteranos, batistas, metodistas etc.). O católico deve reconhecer com alegria a ação do Espírito Santo em todas essas outras denominações. Não só isso, deve orar junto com eles, estudar sua história, cultura e valores com o propósito de encontrar a Verdade.
Em outras palavras, a unidade não será atingida trazendo os irmãos de outras congregações para o catolicismo, mas sim pelo próprio cristão católico superando seu preconceito. Sem a conversão interior do coração, sem a abnegação de si mesmo e sem a transformação da mente do católico, não haverá ecumenismo.
Me surpreendeu. Uau!
O livro se encerra apresentando especificidades positivas que servem de chave para a aproximação com as Igrejas Orientais e as eclesiásticas do Ocidente.
RECOMENDAÇÃO
É um livro pequeno, fininho, com 54 páginas, de fácil leitura. As referências mais importantes, como passagens bíblicas, são trazidas no rodapé das páginas, facilitando a leitura. Novo, custa apenas R$6 (seis reais).
Recomendo exclusivamente aos católicos. Quero explicar minha recomendação com uma última observação.
O título “Decreto Unitatis redintegratio” se traduz como “Restauração da unidade”, que, apesar da modernização, ainda significava a unidade exclusivamente com as comunidades cristãs. Os budistas e os hinduístas não estão no escopo desse ecumenismo. Muito menos espere ver aqui religiões de origem africana, que foram descriminalizadas no Brasil em 1997/98. Cristãos, para eles, são os batizados em igrejas cristãs e que têm fé em Deus uno e trino. Sendo assim, o espírita, o cidadão da Nova Era, aquele que confunde Deus com a Natureza e os simpatizantes do xamanismo estão todos excluídos dessa “unidade” ecumênica.
No ano que vem, o livreto completará 80 anos.
Há textos católicos mais recentes que talvez abordem essas outras práticas que ficaram de fora.
links externos sugeridos pelo autor DESSE POST:
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil
https://www.conic.org.br/portal/
Conselho Mundial de Igrejas (CMI)
O CMI é a principal organização ecumênica em nível internacional e congrega mais de 340 igrejas e denominações cristãs representando mais de 550 milhões de fiéis em mais de 120 países. https://oikoumene.org/
posts NOSSOS RELACIONADOS COM ESSE TEMA:
Os ensinamentos dos antigos monges do deserto contados por Thomas Merton.
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paulo@meditecomigo.org
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